domingo, 4 de março de 2007

Luas vermelhas

Mocinha torce-se pra descer
Depois pra parar de doer
Reza-se logo pra vir
Antes que nasça outro ser

Corre assim teu sacrifício
As pétalas de uma rosa
Dor beleza e ofício
Numa flor vermelha e viçosa

Um assassinato a cada mês
Teu fardo de mulher ser
E se te salvas de matar e então a semente ter

Da maçã que comeste uma vez
Perpetua-se por mais de mês
Teu desejo, tua dor e teu prazer

André Dantas

O rosa no céu

O sol riscava no céu um traço Rosa no horizonte naquele momento. Um Rosa radiante e reluzente contra um azul que tomava conta de tudo. Palavras eram lidas nesse momento em jornais, livros e cadernos.
Algum mestrando lia desesperado de atenção o livro-indicação de um doutor, que lia o de um pós doutor e assim por diante, na escala que um dia chegava em Deus, e não havia mais desafios. Aquele conhecimento não servia para nada, enche-se a cabeça do que serve para construir um mundo ideal na cabeça, e assistir filmes da realidade sentado na poltrona divina.
E quem não lia via televisão. A guerra, a fome, a vida, tudo tem que continuar, o show não pode parar, a pena, o choro, a dor não causa mais comoção, é só um programa de televisão.
Aquele momento estático no tempo nada mudava, nada dava tento. Alguns gatos pingados faziam o vento, que rodava, sem furacão ou tormento. Lá em cima uma ditadura de esquerda se erguia, mais em cima uma de direita vigorava. Lá em baixo o Rosa desaparecia, sem destino, sem utopia, sem ação, sem palavra.

André Dantas
Epitáfio em lugar nenhum

Da ressaca ao recesso
E ali se enterra mais um vaso sem terra
Mais um caso sem cova
Mais um eterno que se encerra
Sem terno nem vela
Sem honra nem forra

André Dantas