segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Aquela luz

Aquela luz... para que serve?

Conversar com alguém e na verdade falar consigo

Mostrar sua vida para si mesmo

Uma vida errada

A chama da vela cintila com a brisa do pôr-do sol

Resta-me apenas o derramamento das circunstâncias

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Offuscare

Meus olhos estão cansados
As retinas fatigadas.
Vejo tudo como um ridículo deja vú
Acontecimento atrás de acontecimento...
secamente olho todas essas coisas
Sem ver profundidade alguma em tudo (isso)
Vendem-me ou então apaguem as luzes
Assoprem essa vela de mediocridade
Ver cansa-me, esgota-me!
Essa falsa perfeição, ócio embutido e sistemático
Apaguem-me tudo isso...Desliguem as luzes
Estou só, gosto de ser só...
A solidão é paradoxalmente minha melhor companheira.
Meu romance declarado, simétrico.
Trago-lhe flores. Flores nascidas e nutridas de dor.
Talvez as flores mais puras e belas
( Digo-lhe que) com ela sinto-me imerso num mar de silêncio e calmaria
E nesse mar mergulho, afogo-me
deixo de existir...
De quê te serve o intelectualismo?
Me diz, de quê te serve a racionalidade e a criticidade?
Meu caro! Te digo firmemente...
Sê rude, sê arcaico, sê estúpido...

Dessa forma nunca serás só, nunca estarás sozinho
Sempre terás um ombro a reclinar-te.
A solidão não é para todos...
Assim como nem todos são para a poesia.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Fetiche

Eu gosto é das meninas
do I.E.P.
Com suas saias curtas
a remexer.
Aquelas coxas macias
ainda vão derreter
todo o meu senso ético...

Todas em grupo,
em cardumes.
Nas praças, nas ruas, seus perfumes
me deixam nu, seu olhares
saindo do Centur...
Seus perfis na sombra da noite.

Quanta vontade
correndo nas veias...
Ah..
O meu gozo naquelas meias...

Abílio Dantas

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Pronto para ouvir

Talvez tudo aquilo que vivi nunca tenha existido
Sorrisos, luares, brigas
Quando o tempo voltar verei meu futuro
Estarei pronto para ouvir sua voz suave dizendo:
Dorme...
(nunca mais abra os olhos)

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Transtorna-me o ato de pensar, incomoda-me as infinitas possibilidades.
A possibilidade de não te ter,
A possibilidade de não te encontrar,
De ver a nossa imagem-ímpar e singular-
Cobrindo-se com o manto da separação.
As possibilidades das lágrimas,
Sim! As cristalinas e transparentes lágrimas
Que umedecem,como o orvalho, o dorido coração.
Melhor seria não pensar, apenas sentir.
Sentir sem saber explicar e conter-se com a falta da explicação.
Esquecer a lógica, ignorar o raciocínio.
Isolar os turbilhões, acalmar-me
Adormecer, para poder sonhar...
A lua hoje não brilhou como deveria brilhar...
Escondeu-se medrosa entre as sombras,
Acovardou-se por medo da solidão.
Que farei sem minha confidente?
A mim só cabe invocar as etérias mãos do silêncio,
E em silêncio desejar um afago...
Um sopro de companhia para aquecer a gélida solidão...
Compadece-te de mim astro celeste!Noiva de branco ,reluz!
Por que na tua luz me sinto menos só.
Antes sentia falta de sentir falta.
Adormecia sem sono algum, pela simples carência física.
Observava tudo meramente por reflexos visuais.
A lua sempre tivera o seu brilho
E as estrelas sempre cintilaram graciosamente.
Tudo sempre existiu,como hoje existe.
mas o mesmo "tudo" que sempre existiu
Hoje existe diferente, existe mais!Existe simplesmente...existindo

ontem

Antes sentia falta de sentir falta.
Adormecia sem sono algum, pela simples carência física.
Observava tudo meramente por reflexos visuais.
A lua sempre tivera o seu brilho
E as estrelas sempre cintilaram graciosamente.
Tudo sempre existiu,como hoje existe.
mas o mesmo "tudo" que sempre existiu
Hoje existe diferente, existe mais!Existe simplesmente...existindo

domingo, 10 de junho de 2007

Quimera

Desalento meu! Não, agora não é só tua voz, mas teu nome. A percorrer todos os espaços do meu "eu".
Ora como um sussurro, ora como uma súplica.Às vezes como uma bela canção( a mais triste de todas as canções).
Então, à partir de uma palavra, um som, personifica-tes no meu ser
Tua beleza embriagante se materializa como um prisma, por onde fito-te em um momento imóvel, estático, porém efêmero.
E quando caio em mim, ja te fostes e a porta jaz entre aberta...



Wagner Costa

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Ausência

Por que? Por que não posso ter-te ao meu colo?
Passar a mão entre teus cabelos?
E sentir a tua respiração como uma doce e serena melodia?
Quisera eu com desvê-lo zelar pelo teu sono,
Mirar tua rubra face, cor de romã e atentar para cada detalhe de tua nostálgica beleza.
Mas não! Isso a mim não é permitido!A mim só cabe ter-te em minha memória
Tu e tuas reminiscências. E na tua ausência sentir-te ao meu lado, quase tocando-te...




Wagner Costa

quinta-feira, 24 de maio de 2007

eva

Eva
Angélica
Meu anjo, meu jambo, jujuba
Me joga, me afoga e me juga
que mesmo na folga não tenho fuga
Me inspira como teu perfume respiro
E eu vou contigo pro retiro
Eu rezo, eu te clamo, eu te tiro
e me atiro em seus braços na chuva
Minha eva
Minha uva
minha vulva

domingo, 4 de março de 2007

Luas vermelhas

Mocinha torce-se pra descer
Depois pra parar de doer
Reza-se logo pra vir
Antes que nasça outro ser

Corre assim teu sacrifício
As pétalas de uma rosa
Dor beleza e ofício
Numa flor vermelha e viçosa

Um assassinato a cada mês
Teu fardo de mulher ser
E se te salvas de matar e então a semente ter

Da maçã que comeste uma vez
Perpetua-se por mais de mês
Teu desejo, tua dor e teu prazer

André Dantas

O rosa no céu

O sol riscava no céu um traço Rosa no horizonte naquele momento. Um Rosa radiante e reluzente contra um azul que tomava conta de tudo. Palavras eram lidas nesse momento em jornais, livros e cadernos.
Algum mestrando lia desesperado de atenção o livro-indicação de um doutor, que lia o de um pós doutor e assim por diante, na escala que um dia chegava em Deus, e não havia mais desafios. Aquele conhecimento não servia para nada, enche-se a cabeça do que serve para construir um mundo ideal na cabeça, e assistir filmes da realidade sentado na poltrona divina.
E quem não lia via televisão. A guerra, a fome, a vida, tudo tem que continuar, o show não pode parar, a pena, o choro, a dor não causa mais comoção, é só um programa de televisão.
Aquele momento estático no tempo nada mudava, nada dava tento. Alguns gatos pingados faziam o vento, que rodava, sem furacão ou tormento. Lá em cima uma ditadura de esquerda se erguia, mais em cima uma de direita vigorava. Lá em baixo o Rosa desaparecia, sem destino, sem utopia, sem ação, sem palavra.

André Dantas
Epitáfio em lugar nenhum

Da ressaca ao recesso
E ali se enterra mais um vaso sem terra
Mais um caso sem cova
Mais um eterno que se encerra
Sem terno nem vela
Sem honra nem forra

André Dantas

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Círio
Originalmente uma vela
Uma vela que pode ofuscar
Ou iluminar

Chegou
Segundo domingo de outubro
Mas já começou muito antes

No aeroporto vôos de chegada
Em todos os horários
Congestionamento aéreo
Será que a santa não se incomoda com o barulho?

Estrangeiros chegarão
Alguém vai mandar avisar
Pra outro que vai escutar
E passar para outro que vai repassar
Algum aviso importante qualquer

Vai acontecer um genocídio
De patos, peixes
Perus e gatos, para o churrasquinho
E pombos e periquitos de ataque cardíaco
Com medo dos fogos
Vai chover merda

Alguns vão trabalhar mais
Alguns vão trabalhar menos
A Santa vai trazer paz
A Santa vai trazer transtorno

A Santa vai dar lucro aos donos de restaurantes
Supermercados, agências de viagem, jornais
Televisões, hotéis.
Aos donos, é claro.

Barcos irão balançar
Motores irão roncar
Fogos irão explodir
Crianças vão chorar
E também se perder
Carteiras serão batidas
Carros furtados

Como é lindo o círio
Pessoas enclausuradas umas com as outras
Como em poucas oportunidades
Se sentirá cheiro tão forte de gente
Calor humano puro e concreto
Conforto no suor do próximo

Peitos se esmagarão de forma fraternal
Cabeças ferverão
Pés se esfolarão
Mãos vão calejar
Músculos distender
Pés vão cair na vala
Corpos vão cair
Alguns vão padecer
Outros vão morrer

O evangélico terá inveja
Muitos vão se admirar de quanto o homem pode ser louco

A Santa vai desfilar
Será que ela vai estar orgulhosa
Com todo aquele sacrifício?
As bolhas nos pés
E os desmaiados
Ah que beleza!

A Santa vai estar linda!
Ela vai ser aplaudida pelo papa
E vai cumprimentá-lo
Vai descomungar os homossexuais
E vai crucificar as mulheres que abortaram
Será mesmo que vai?

A Santa vai criar as crianças abandonadas?

Será que vai ser assim?
Ou será que a Santa é diferente?

Será que ela vai
Olhar chorando todo aquele povo
Mesmo sem poder chorar
Aprisionada em seu pau velho?

Ela não se sentirá aprisionada
Naquela gaiola a que chamam berlinda
Como um passarinho que não pode voar?

Será que ela não vai murmurar lá de dentro
Que ela queria outros sacrifícios de nós?

Será que ela não está tentando fugir há muito tempo
Desde quando desapareceu em uma e apareceu em outra igreja?
Será que ela não queria apenas ficar quieta, ribeirinha, em seu igarapé?
“Aonde está o igarapé?”

Será que Plácido não foi algoz, ditador, intransigente?

As outras capitais lamentar-se-ão não terem festa
Tão grandiosa
São Benedito olhará com desprezo
Dizendo que a Marujada de Bragança é mais dançante
E muito mais libertadora

Aparecida morrerá de inveja
Fazendo questão de relembrar quem é a padroeira do Brasil
Alegando que seu festejo só não é tão rico por pura discriminação racial

Mulheres, homens e crianças, viajarão centenas de quilômetros
Pôpôpôs vão fazer mais pôs do que o normal
Os rios sentirão cócegas de tantas remadas

O ibop vai aumentar
Na televisão
A venda dos jornais vai triplicar
Os olhos do mundo vão se voltar pra cá
Tal vez a santa até ganhe o Oscar de melhor atriz
E a procissão de melhor filme estrangeiro

Algumas centenas terão indigestão
Os vasos sanitários irão se encher mais que o normal
Vai ser preciso algumas milhares de gotas de elixir paregórico
Alguns bilhões de sonrrizais
E muito hidróxido de alumínio

Alguém vai torturar o pato
Antes de matar
Outros aplicarão o golpe misericordioso e rápido
De lhe quebrar o pescoço
Muitos correrão freneticamente
E abestadamente atrás da ave
Cujo destino será um tucupi bem quentinho

Alguns se viciarão na maniva pura
Cheirando-a compulsivamente
Precisando ser internado no Nova Vida.
Outros ficarão impregnados
Utilizando a maniva pré-cozida como perfume e desodorante
Uma perfeita essência afrodisíaca.

Outros tantos se queimarão com a vela
Enchendo o dedo de cera
Cera essa que se acumulará na Basílica
Para depois virar vela, para depois virar cera
E dar continuidade ao processo

Centenas de miritizeiros serão ceifados brutalmente para se fazer lindos brinquedos
Contribuindo assim para o desmatamento
E assim para o aquecimento global, e para fazer mais calor no meio da corda

Vai ter arrastão
Vai ter chiquita
Vai ter de tudo

E a Santa vai sorrir e chorar num só dia

André Dantas