Círio
Originalmente uma vela
Uma vela que pode ofuscar
Ou iluminar
Chegou
Segundo domingo de outubro
Mas já começou muito antes
No aeroporto vôos de chegada
Em todos os horários
Congestionamento aéreo
Será que a santa não se incomoda com o barulho?
Estrangeiros chegarão
Alguém vai mandar avisar
Pra outro que vai escutar
E passar para outro que vai repassar
Algum aviso importante qualquer
Vai acontecer um genocídio
De patos, peixes
Perus e gatos, para o churrasquinho
E pombos e periquitos de ataque cardíaco
Com medo dos fogos
Vai chover merda
Alguns vão trabalhar mais
Alguns vão trabalhar menos
A Santa vai trazer paz
A Santa vai trazer transtorno
A Santa vai dar lucro aos donos de restaurantes
Supermercados, agências de viagem, jornais
Televisões, hotéis.
Aos donos, é claro.
Barcos irão balançar
Motores irão roncar
Fogos irão explodir
Crianças vão chorar
E também se perder
Carteiras serão batidas
Carros furtados
Como é lindo o círio
Pessoas enclausuradas umas com as outras
Como em poucas oportunidades
Se sentirá cheiro tão forte de gente
Calor humano puro e concreto
Conforto no suor do próximo
Peitos se esmagarão de forma fraternal
Cabeças ferverão
Pés se esfolarão
Mãos vão calejar
Músculos distender
Pés vão cair na vala
Corpos vão cair
Alguns vão padecer
Outros vão morrer
O evangélico terá inveja
Muitos vão se admirar de quanto o homem pode ser louco
A Santa vai desfilar
Será que ela vai estar orgulhosa
Com todo aquele sacrifício?
As bolhas nos pés
E os desmaiados
Ah que beleza!
A Santa vai estar linda!
Ela vai ser aplaudida pelo papa
E vai cumprimentá-lo
Vai descomungar os homossexuais
E vai crucificar as mulheres que abortaram
Será mesmo que vai?
A Santa vai criar as crianças abandonadas?
Será que vai ser assim?
Ou será que a Santa é diferente?
Será que ela vai
Olhar chorando todo aquele povo
Mesmo sem poder chorar
Aprisionada em seu pau velho?
Ela não se sentirá aprisionada
Naquela gaiola a que chamam berlinda
Como um passarinho que não pode voar?
Será que ela não vai murmurar lá de dentro
Que ela queria outros sacrifícios de nós?
Será que ela não está tentando fugir há muito tempo
Desde quando desapareceu em uma e apareceu em outra igreja?
Será que ela não queria apenas ficar quieta, ribeirinha, em seu igarapé?
“Aonde está o igarapé?”
Será que Plácido não foi algoz, ditador, intransigente?
As outras capitais lamentar-se-ão não terem festa
Tão grandiosa
São Benedito olhará com desprezo
Dizendo que a Marujada de Bragança é mais dançante
E muito mais libertadora
Aparecida morrerá de inveja
Fazendo questão de relembrar quem é a padroeira do Brasil
Alegando que seu festejo só não é tão rico por pura discriminação racial
Mulheres, homens e crianças, viajarão centenas de quilômetros
Pôpôpôs vão fazer mais pôs do que o normal
Os rios sentirão cócegas de tantas remadas
O ibop vai aumentar
Na televisão
A venda dos jornais vai triplicar
Os olhos do mundo vão se voltar pra cá
Tal vez a santa até ganhe o Oscar de melhor atriz
E a procissão de melhor filme estrangeiro
Algumas centenas terão indigestão
Os vasos sanitários irão se encher mais que o normal
Vai ser preciso algumas milhares de gotas de elixir paregórico
Alguns bilhões de sonrrizais
E muito hidróxido de alumínio
Alguém vai torturar o pato
Antes de matar
Outros aplicarão o golpe misericordioso e rápido
De lhe quebrar o pescoço
Muitos correrão freneticamente
E abestadamente atrás da ave
Cujo destino será um tucupi bem quentinho
Alguns se viciarão na maniva pura
Cheirando-a compulsivamente
Precisando ser internado no Nova Vida.
Outros ficarão impregnados
Utilizando a maniva pré-cozida como perfume e desodorante
Uma perfeita essência afrodisíaca.
Outros tantos se queimarão com a vela
Enchendo o dedo de cera
Cera essa que se acumulará na Basílica
Para depois virar vela, para depois virar cera
E dar continuidade ao processo
Centenas de miritizeiros serão ceifados brutalmente para se fazer lindos brinquedos
Contribuindo assim para o desmatamento
E assim para o aquecimento global, e para fazer mais calor no meio da corda
Vai ter arrastão
Vai ter chiquita
Vai ter de tudo
E a Santa vai sorrir e chorar num só dia
André Dantas
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
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